sábado, 21 de fevereiro de 2015

De cara no vão

de João Gollo


Ontem caminhava pela tarde de uma avenida, ao meio dia, sol a pino, em conflito com uma multidão indiferente a andar apressada e absurdamente enviesada.
Ia-me ao despropósito dos rumos, absorto nas lembranças quando pensei ter visto um antigo amor no meio da massa incaracterizável.


_ Não, não era. Só parecia - insisti enganando a mim mesmo.


Passados anos, quando dei por mim, tinha andado trilhômetros, e seguia pressentindo caminhar incessante rumo ao ponto abissal, donde não haveria escapatória. Tremia por dentro mas, inerente ao homem como deve transparecer, fingia rígido. 
Pisava com toda a certeza das doutrinas o próximo passo, dizendo a mim mesmo o quão absurdo era aquilo mas, ao mesmo tempo, ouvindo o ruído das pisadas alheias, dos ferros tilintando, das respirações constantes, percebi: não tinha saída.
Chafurdando-me na poeira dos calços, coberto pela aca mais repugnante, enfim varei à margem do são e caí, como vários que vi caírem. 

Gozado. Alguns, sem perceber que caiam, mantinham a caminhada. Outros, tentando alcançar algo sobre, algo que não se via, imploravam sozinhos.
E caí, como todos, de cara no vão.