sábado, 21 de fevereiro de 2015

Gato na Escadaria

de João Gollo

Numa casa bem bonitinha, mas bem bonitinha mesmo, vivia um gato. Ele adorava morar ali onde reinava gatuno, respirando os ares do amor de seus donos em meio à refeições saborosas e demoradas carícias. Assim, desfrutava da mordomia que todo gato queria. Tinha o hábito de dormir tarde porque sabia que não tinha hora pra acordar. Malandro, aprendeu a ligar a televisão e a mudar de canal para assistir ao programa que mais gostava, um que mostrava pessoas e quinquilharias. O gato achava engraçado ver como os objetos pareciam com as pessoas e vice-versa. Era rotina desligar a TV e se aninhar no cobertor que lhe servia de cama, e assim o fez mais uma noite.
No dia seguinte, após lambiscar umas migalhas de torrada caídas da mesa do café, seguiu para o sofá para o ritualístico banho matinal, lambendo-se do rabo ao pescoço, com o ritmo constante da experiência felina. A dona da casa sentou-se ao seu lado. Cativado pelo colo quente, ele parou com as lambidas, se levantou lentamente como que posando para uma sessão interminável de fotos e apoiou as patas dianteiras sobre a pele crua das coxas da patroa. Foi então que, de dentro dele, emergiu aquela vontade devastadora e imediata de se espreguiçar, incontrolável para qualquer felino. Ergueu as patas traseiras, espichou o rabo, contorceu as costas e apontou as patas dianteiras pra frente. Quando fez isso, suas unhas cravaram na coxa da mulher, que revidou escorraçando o gato pra fora de casa. Sem ter pra onde ir, parou numa escadaria pouco usada pelas pessoas.
Algum tempo depois, apareceu uma gata preta de barriga branca e se acomodou num degrau acima. Não demorou muito, trocaram miados e logo o gato sentiu uma coisa que ele nunca havia sentido antes crescer dentro de si, uma coisa que gelava a barriga, sufocava a garganta, fazia suas patas tremerem e a vista encher de floquinhos de luz. Foi enfeitiçado.
Por sete dias e sete noites, vagou com a gata para lugares que nunca tinha ido. Foram às montanhas, de onde viram as luzes da cidade; ao Cerrado, onde passavam as tardes quentes estirados um ao lado do outro; nos prédios da cidade, onde o conforto era relativo e arriscado; e sobre os carros, quando não havia tempo e a chuva os surpreendia de súbito. Aliás, a chuva foi a única cúmplice constante do encontro entre os dois. Choveu nos sete dias em que os dois estiveram juntos. “Quando estiar, vou seguir meu rumo” – avisava a voz felina e macia para o gato apaixonado. E tanto falou que assim fez. Quando o ar secou, ela seguiu seu caminho. Ele sabia que ela iria embora mais cedo ou mais tarde, e pensou até numa maneira de congelar o tempo, mas logo percebeu que o tempo, insaciável, come tudo que vê pela frente, deixando pra trás o passado imutável, incorrigível.
Passando o tempo, o gato voltou a sua rotina de afagos, carinhos e mesa farta. Parou de observar a janela à noite, de olhar em baixo dos carros, de procurar nos edifícios, nas picadas no Cerrado e deixou de ir às montanhas. Percebeu, dentro daquelas paredes, o quanto todo aquele amor ofertado a ele era fundamental, como aquelas pessoas – seres humanos! – eram importantes pra ele. Passaram dias, semanas, meses, e seu peito foi se curando da ferida.

Num dia de chuva, sem nenhuma previsão ou por que, o gato se viu diante da gata preta de barriga branca. Gelou. Suas patas estremeceram, a garganta secou e um raio frio passou pela coluna. Correram em direção um do outro e deram um forte e acarinhado abraço, como só os felinos sabem dar. , saíram da cidade felizes, sob as lágrimas cúmplices da chuva de outubro - pelo menos foi o que eu ouvi falar.