de João Gollo
Numa casa bem bonitinha, mas bem bonitinha mesmo, vivia um gato. Ele adorava morar ali onde reinava gatuno, respirando os ares do amor de seus donos em meio à refeições saborosas e demoradas carícias. Assim, desfrutava da mordomia que todo gato queria. Tinha o hábito de dormir tarde porque sabia que não tinha hora pra acordar. Malandro, aprendeu a ligar a televisão e a mudar de canal para assistir ao programa que mais gostava, um que mostrava pessoas e quinquilharias. O gato achava engraçado ver como os objetos pareciam com as pessoas e vice-versa. Era rotina desligar a TV e se aninhar no cobertor que lhe servia de cama, e assim o fez mais uma noite.
No dia seguinte, após lambiscar umas
migalhas de torrada caídas da mesa do café, seguiu para o sofá para o
ritualístico banho matinal, lambendo-se do rabo ao pescoço, com o ritmo
constante da experiência felina. A dona da casa sentou-se ao seu lado. Cativado
pelo colo quente, ele parou com as lambidas, se levantou lentamente como que
posando para uma sessão interminável de fotos e apoiou as patas dianteiras
sobre a pele crua das coxas da patroa. Foi então que, de dentro dele, emergiu
aquela vontade devastadora e imediata de se espreguiçar, incontrolável para
qualquer felino. Ergueu as patas traseiras, espichou o rabo, contorceu as
costas e apontou as patas dianteiras pra frente. Quando fez isso, suas unhas cravaram
na coxa da mulher, que revidou escorraçando o gato pra fora de casa. Sem ter
pra onde ir, parou numa escadaria pouco usada pelas pessoas.
Algum tempo depois, apareceu uma
gata preta de barriga branca e se acomodou num degrau acima. Não demorou muito,
trocaram miados e logo o gato sentiu uma coisa que ele nunca havia sentido
antes crescer dentro de si, uma coisa que gelava a barriga, sufocava a
garganta, fazia suas patas tremerem e a vista encher de floquinhos de luz. Foi enfeitiçado.
Por sete dias e sete noites, vagou
com a gata para lugares que nunca tinha ido. Foram às montanhas, de onde viram
as luzes da cidade; ao Cerrado, onde passavam as tardes quentes estirados um ao
lado do outro; nos prédios da cidade, onde o conforto era relativo e arriscado;
e sobre os carros, quando não havia tempo e a chuva os surpreendia de súbito.
Aliás, a chuva foi a única cúmplice constante do encontro entre os dois. Choveu
nos sete dias em que os dois estiveram juntos. “Quando estiar, vou seguir meu
rumo” – avisava a voz felina e macia para o gato apaixonado. E tanto falou que
assim fez. Quando o ar secou, ela seguiu seu caminho. Ele sabia que ela iria
embora mais cedo ou mais tarde, e pensou até numa maneira de congelar o tempo,
mas logo percebeu que o tempo, insaciável, come tudo que vê pela frente,
deixando pra trás o passado imutável, incorrigível.
Passando o tempo, o gato voltou a
sua rotina de afagos, carinhos e mesa farta. Parou de observar a janela à
noite, de olhar em baixo dos carros, de procurar nos edifícios, nas picadas no
Cerrado e deixou de ir às montanhas. Percebeu, dentro daquelas paredes, o
quanto todo aquele amor ofertado a ele era fundamental, como aquelas pessoas –
seres humanos! – eram importantes pra ele. Passaram dias, semanas, meses, e seu
peito foi se curando da ferida.
Num dia de chuva, sem nenhuma
previsão ou por que, o gato se viu diante da gata preta de barriga branca.
Gelou. Suas patas estremeceram, a garganta secou e um raio frio passou pela
coluna. Correram em direção um do outro e deram um forte e acarinhado abraço,
como só os felinos sabem dar. , saíram da cidade felizes, sob as lágrimas
cúmplices da chuva de outubro - pelo menos foi o que eu ouvi falar.