segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Da Carne

de João Gollo


Na casa de sempre
Fazia loucuras
Roubava doçuras
De moças ardentes
Que apaixonadas, dementes
Se entregavam ao fim
Com corpo e gosto al dente.

Ele juntava como selos
Paixões, crimes, desejos
Fósforos que, mesmo apagados
Já os via acesos
Sem nenhuma prepotência
(Até porque sem consciência)
Continuava em seus beijos.

Fez uma, duas, três vezes
Como se tivesse razão
Não parecia delito
Pra ele começava a ser são
Um cálculo talvez abominável
Repito – para ele era amável
Ser assim apadrão.

A primeira começou de mãos dadas
Aquela história de calçada
Namoro na sala, beijo na boca
Quando a família não tá acordada
Até que cansou disso tudo
E fez um piquenique absurdo
Onde ele se convidou pra comer o defunto.


Com a segunda foi diferente
Não sentia cosquinha, é evidente
Sentia tesão por ter ali, tão perto
Alguém tão certa de seus desejos.
Porém ela se limitou tanto
Que ele, não sendo tão santo,
Fez um prato ao seu manto.

Com a terceira foi mais sublinhado
Um parto rosa, um pai abobado
Ano após ano manteve-se inerte
No entanto, o desejo que repete, vicia
Então, de baixo de sol que não se fazia
Colheu de sua cria o suspiro da vida
Seguindo adiante rasgou-lhe as peles frias
E a tal hora presenciou o triste
Porém agora era tarde
Mordeu a terceira ainda com vida
Que o grito sibilou pela avenida
E tanto sangue ainda não foi capaz
De acabar com esse desejo

Da carne que lhe satisfaz.